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Mário tem 12 anos e apresenta dificuldade de compreender e responder os textos escritos de português, história e geografia. Às vezes ciências também lhe parece difícil. Em época de provas não há muito como consultar seu caderno, já que não pode compreender bem a letra grafada das poucas anotações que faz. Mário apresenta Transtorno do Processamento Auditivo Central. 

Mário apresenta Transtorno do Processamento Auditivo Central, mas não sabe disso. Nunca foi diagnosticado. Os sintomas o acompanham desde a idade pré-escolar: Dificuldade de cantar musiquinhas e de seguir as rotinas na escola. Depois, no início da idade escolar, os professores atentavam para a dificuldade de manter a atenção, de executar com precisão os comandos dados, de não acompanhar a média de desempenho da classe e de demorar muito para fazer suas atividades.  Com 12 anos as dificuldades se agravaram e a situação atual aponta para uma enorme dificuldade de linguagem escrita, de planejamento e de gerenciamento da vida escolar.

A inabilidade de compreender a fala de forma ampla na ausência de uma perda auditiva é denominada Transtorno do Processamento Auditivo Central (também conhecida como Distúrbio do Processamento auditivo central). Musiek (2010) uma referência no assunto tem descrito o processamento auditivo central como a  forma com que o ouvido fala com o cérebro e como o cérebro entende o ouvido.

O diagnóstico do TPAC é feito pelo fonoaudiólogo por meio de uma avaliação denominada avalição do processamento auditivo central. Essa avaliação permite a investigação do funcionamento das habilidades auditivas que são de responsabilidade da função auditiva  central,  tais como localização, percepção  de padrões temporais, discriminação, etc.

Por meio da avaliação do PAC o fonoaudiólogo pode identificar se a criança, adolescente ou até mesmo adulto apresenta o Transtorno do Processamento Auditivo Central, quais funções auditivas estão prejudicas e quais habilidades auditivas estão dificultando ou limitando o desenvolvimento, a atividade e a participação adequada da pessoa  em questão na execução de suas atividades diárias, pessoais e acadêmicas.

Após o diagnóstico do TPAC a criança ou o adolescente deve ser encaminhado a um programa de intervenção e tratamento de reabilitação do TPAC, o qual não  inclui administração de medicamentos. Ele é feito pelo fonoaudiólogo por meio de tratamento terapêutico abrangente e específico.

Cabe aqui ressaltar que apenas 5% dos diagnósticos dos TPAC são restritos a essa alteração; 95% dos casos de diagnóstico co-ocorrem com outros  distúrbios como o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade; o Transtorno de Aprendizagem, o Distúrbio de linguagem e o Transtorno do Espectro Autista Isso significa que as alterações podem co-ocorrer e necessitarem de diferentes intervenções paralelamente.

Voltando ao programa de intervenção e tratamento para o TPAC diversos estudiosos no tema (Musiek, 2000,2010,2012; Chemark, 2010; Bellis, 2010; AAA, 2010) dividem didaticamente o tratamento do processamento auditivo em duas abordagens: o treinamento auditivo bottom up  também conhecido como treinamento auditivo acusticamente controlado (TAAC) ou como treinamento em cabine acústica, e o treinamento auditivo top down, muitas vezes denominado como treinamento auditivo informal.

O TAAC foca no treinamento auditivo das habilidades alteradas e na adequação e emprego de estratégias auditivas (por exemplo, ouvir dois sons e falar se eles são iguais ou diferentes; ou ouvir uma frase no ruído e ter que compreendê-la). O treinamento auditivo abrange a realização de tarefas auditivas  de localização, discriminação, fechamento, figura fundo, sequencialização e compreensão na ausência e presença de condições auditivas adversas, tais como ruído e fala competitiva.

Em determinadas situações, principalmente naquelas nas quais o TPAC está co-ocorrendo com outros transtornos,  o treinamento isolado das habilidades auditivas pode não ser suficiente para a  auxiliar a criança ou o adolescente a compreender a complexidade linguística exigidas nas mais diferentes tarefas, o que leva a necessidade de uma forma complementar de tratamento denominada top down.

O  treinamento auditivo top down concentra no desenvolvimento de habilidades funcionais da linguagem , tais como vocabulário, gramática, estratégias conversacionais e no emprego de estratégias metacognitivas  que possam facilitar a comunicação.

Mudanças ambientais também fazem parte do programa de intervenção das crianças e adolescentes com TPAC. Deve-se  minimizar o ruído e a reverberação da sala de aula e de casa, com o objetivo de melhorar a relação sinal-ruído, aumentando assim a clareza da mensagem principal. Em geral, podem-se utilizar materiais espessos e pesados para evitar ruídos externos, bem como usar materiais macios e porosos para absorver a reverberação do interior da sala (ladrilhos acústicos, tapetes, quadros de aviso e murais podem ser utilizados para diminuir a reverberação.

A posição da criança na sala de aula deve ser próxima ao professor e o seu local de assento deve permitir a maximização das pistas auditivas e visuais. O local designado deve ficar longe do corredor e portas e do ruído de ruas e janelas. Quanto à comunicação, alguns aspectos devem ser observados e algumas estratégias comunicativas podem ser empregadas, a saber:

  • Verifique se a criança está olhando para você antes de começar a falar;
  • Chame-a pelo nome ou toque-a levemente, antes de iniciar a fala;
  • Reduza ruídos ambientais em situações de comunicação;
  • Utilize frases mais curtas;
  • utilize uma linguagem rica em entonação;
  • Fale mais pausadamente;
  • Contextualize os assuntos abordados;
  • Utilize  a linguagem corporal e gestos naturais associadas à fala;
  • Confirme a compreensão antes de trocar de assunto; questione a criança para garantir a compreensão;
  • Monitore a atenção da criança;
  • Motive a participação da criança em atividades diversas.

O TPAC pode afetar o desenvolvimento acadêmico e linguístico da criança e do adolescente.  A identificação precoce do TPAC pode ajudar  a criança a ter um bom desenvolvimento e uma melhor qualidade de vida. Em caso de dúvida procure um fonoaudiólogo.

 Referenciar como: Mecca, F.; Guedes, M. (2016) Transtorno do Processamento Auditivo Central. AudiçãonaCriança Publicações <www.audicaonacrianca.com>

 

 
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